segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Capítulo 7 - O dia depois de ontem

05 de abril de 2009

Liguei pros dois números de celular dele umas 70 vezes, mas dava tudo fora de area. As últimas palavras dele ainda ecoavam na minha cabeça e eu só conseguia pensar um monte de besteiras. Resolvi ir lá no apartamento dele, toquei a campainha, bati a porta, chamei por ele, só silêncio. O carro não tava na vaga, eu pensei que ele pudesse ter ido pra casa de algum amigo passar um tempo, esfriar a cabeça.
No outro dia liguei pra ele, nada. Liguei pra casa da família dele e ninguém tinha notícias, eu ia procurar ele na casa dos amigos, mas resolvi deixar o dia passar, na segunda-feira ele iria trabalhar e eu teria certeza de que estava tudo bem. Mas ele não foi trabalhar. Naquele dia, eu morri um pouco. Busquei falar com uma amiga dele que eu tinha conhecido rapidamente e ela me contou alguns detalhes que eu ainda não sabia. Ernesto estava sumido e tinha apenas deixado um bilhete dizendo adeus a filha.
Comecei um processo auto-destrutivo, bebi, revoltei, tudo era tão idiota, se o mundo tinha acabado, que sentido fazia qualquer coisa? Eu tinha certeza de que o mundo ia acabar, de que tudo iria se destruir, era só uma questão de eu dar uma ajudinha. Acho que o coiote life style estava me caindo bem naqueles dias. A verdade é que depois de 4 ou 5 dias o mundo continuou intacto e eu tive que fazer o que todo mundo faz quando está devastado: juntar os caquinhos e recomeçar.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

capitulo 6 - A carta

Outubro de 2004

Estou lendo a carta que Ernesto me escreveu mais uma vez, e mal posso acreditar que ele vai ter um filho. Aquele namoro dele não tinha acabado umas 500 vezes? As pessoas andam levando muito a sério essa história de fazer as pazes no relacionamento. Confesso que fiquei muito triste com a notícia, esperava que num desses fins de relacionamento Ernesto finalmente pudesse olhar pra mim e dizer que também gosta de mim e que está apaixonado por mim. Sou meio boba mesmo, apaixonada pelo meu melhor amigo, enquanto ele agora vai ter uma família com aquela doida. Esse é o fim.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Capítulo 5: Che, o Guevara.

Hoje em dia vejo várias pessoas usando camisas estampadas com a foto de Che, o Guevara. Sua imagem representa a luta contra a injustiça social ou rebeldia e espírito incorruptível, um homem que promoveu uma revolução, que persiste até hoje nos corações de muitos. Che foi um político, jornalista, escritor, médico, argentino/cubano; comandou e liderou a revolução cubana que modificou o regime político do país.
Na verdade Che não me interessa em muita coisa, mas numa única coisa. Antes de estampar camisetas, ou mesmo ser um revolucionário, Che era apenas um rapaz latino americano com algum dinheiro no bolso, uma faculdade de medicina a terminar e uma vida inteira pela frente. Nada como achar que o fim é sempre longe demais do presente. Eis que ele resolve andar cerca de 8 mil km pela América latina numa velha moto, com um amigo a tira colo e como não poderia ser diferente eles terminam a pé, tendo passado por mais coisas que imaginavam e menos do que desejavam.
Essa viagem transforma Che de modo muito interessante e muito bem retratado no filme "diários de motocicleta", em verdade não sei, nem poderia dizer quais transformações foram essas ou que restou dele do que era antes de viajar, mas acho que seria impossível passar por uma experiência assim e ainda ser completamente o mesmo.

Capítulo 4.

04 de abril de 2009
Estava nervosa demais para ficar apenas naquelas cervejas, estava revoltada com o mundo, com os homens, com o último livro que eu li (sexo anal: uma história marrom). Adorava a ideia de esticar a noite com ele, para rir e olhar para o mundo como se tudo fosse um monte de besteiras. Fomos para uma festa que estava rolando as mesmas bandas de sempre, as mesmas pessoas de sempre, a velha história repetida de um jeito... igual. Mas que importava?
Encontrei vários colegas, conversamos muita besteira. Encontrei um cara que gostava muito de mim, mas que Ernesto o havia apelidado carinhosamente de "Psicopata", pois ele havia ficado meio obcecado por mim. Mas naquele dia eu percebi que ele não era um psicopata, era apenas um cara apaixonado e ainda apaixonado por mim, de um jeito meigo. Na verdade Ernesto não gostava muito dos meus paqueras, sempre havia um apelido como " o psicopata" ou o "chato" ou o cara que só quer lhe comer. Às vezes acho que nos relacionamentos amorosos sempre tem que ter um otário para formar a dupla.
Ernesto era um bom amigo, daqueles que segura a porta do banheiro químico enquanto vc tem que usar. É difícil uma mulher fazer isso, mas fazemos, pois a relação de necessidade nos obriga, imagine um homem fazer isso sem ter certeza de que depois vai comer a mulher para a qual ele se presta tal favor. Ernesto é o tipo de homem que segura a porta do banheiro químico pra você, é o tipo de homem que não existe.
Tudo acontece muito rápido e como não podia ser diferente, nesse dia tudo foi tão rápido quanto se possa imaginar. Não sei o que aconteceu, devo ter recalcado, só me lembro de estar com os olhos cheios de lágrimas olhando pra Ernesto e pedindo pra ele se acalmar. Ele me pedia desculpas e dizia que eu não merecia estar perto de pessoas como ele, eu só consegui pensar que nada do que ele estava dizendo fazia sentido.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Capítulo 3

Março de 2004
No caminho para a aula, ele vai conversando comigo, falando trivialidades, a gente andando apressado por causa do atraso. A primeira impressão era de que ele era um cara tímido, com muitas ideias e poucos amigos. Ele falou mais ou menos o que estava achando do curso, daquelas aulas iniciais e como aquele ensino na área de humanas era diferente das demais áreas.
- Nas ciências humanas a postura do professor é totalmente diferente, ele dá aula, ainda que não seja a melhor aula.
- É, deve ser. Nunca estudei na área das exatas, não posso falar.
- Nas exatas o ensino é uma merda, o professor não tá nem aí pra nada. O aluno que se foda.
Ele ficou ainda falando um pouco sobre professores e ensino, eu ficava a maior parte do tempo calada ou dizia "aham, sei", só para dar continuidade. E ele continuava, era o tipo de pessoa que não precisava necessariamente de um interlocutor para conversar, para ele bastava a companhia para ele ficar expondo suas ideias e não ficar falando sozinho feito um louco. Ele fala mais pra ele (ouvir) do que para os outros, mas isso eu não tirei de uma primeira impressão.
Ele não era tão abestalhado quanto parecia. Tinha olhos apertados e avermelhados, cara de sono, jeito de quem acabou de fumar um baseado, roupa amarrotada, calça no meio da bunda arrastando uns 3cm de bainha pelo chão, cadaço desamarrado e pés tortos com pisada pra dentro. Era para ele ter usado botas quando pequeno, a essa altura é difícil corrigir pés tortos e ele já deveria ter uns 21 anos.
Estavamos nos aproximando da sala de aula e tinha uma pequena copa vizinha a sala, eu entrei pra beber um pouco de água e ele pegou uma garrafa de café e encheu um copo grande. Olhei mais uma vez e perguntei:
- Como é seu nome mesmo?
- Ernesto.
Eu me apresentei e ele disse que sabia quem eu era.

domingo, 12 de junho de 2011

Capítulo 2 - O início.

Março de 2004
Era meu primeiro ano de faculdade, o ano anterior tinha sido dedicado em exclusividade para estudar e passar num curso concorrido na universidade federal. Feito realizado. Eu estava animada querendo fazer amizades, me sentir parte de um grupo, eu parecia mais uma adolescente de 14 anos querendo se encaixar. Não estava acostumada com essa história de ir com a roupa que quiser. Passei tantos anos usando farda que não sabia nem o que era usar roupa normal todo dia. Nos primeiros dias usei o que eu achava mais parecido com roupa normal: uma calça djeans, uma camiseta baby look e um all star cor de rosa com azul (meu xodó durante todo o ensino médio), depois percebi que esse não era exatamente um estilo básico, era um estilo rock, mas isso é assunto para um outro texto.
Às vezes acredito naquela premissa que diz que a distância é inversamente proporcional ao tempo que você leva para chegar ao destino, pois apesar de morar à três minutos e meio da faculdade, eu sempre chegava atrasada. Nesse dia não foi diferente, acho que já era a segunda ou terceira semana de aula e quando eu cheguei na correria para não me atrasar mais do que devia, eu vi que a sala estava vazia, quer dizer, quase vazia. Havia um cara na sala, que eu já tinha visto alguma vez, sempre usando um all star preto, calça djeans e camisa de botão. Com exceção da roupa, não havia nada naquele sujeito que me agradasse. Ele estava sentado numa das últimas carteiras lendo algum livro que eu não consegui identificar. Eu cheguei, olhei bem pra sala, e fui verificar se havia alguém nos corredores, mas não havia ninguém, então resolvi logo voltar pra sala e perguntar àquele menino o que tinha acontecido.

- Cade o pessoal da sala, por que a aula ainda não começou?
- O pessoal vai chagar, é só esperar aí.
- Mas a aula já devia ter começado!
- O pessoal vai chegar.

Eu não conseguia olhar pra cara daquele menino e não achar que ele era um completo idiota. Alou! Já estavamos quase 25 minutos atrasados e não tinha ninguém pelos corredores ou na sala, é claro que havia algo errado, eu não podia simplesmente esperar "o pessoal chegar". Devia ter acontecido alguma coisa, os professores costumavam faltar algumas aulas e não avisar a ninguém, então eu logo imaginei que seria isso. Liguei para a única pessoa da turma que eu tinha o telefone e ele me disse que a aula era em outra sala e me disse o nome.
Voltei a falar com o cara e seu livro avisando-o que a aula ia ser em outro local e ele me exclama um "poxa, ainda bem que você me avisou, senão eu ficar aqui até..." eu só conseguia pensar que aquele cara era um abestalhado e que eu teria que ir o caminho todo (uns 6 a 7 minutos) conversando com ele.

Capitulo 1 - Noite qualquer: primeira parte.

03 de abril de 2009
Não parecia ser uma noite diferente das demais, estava saindo com meus amigos de sempre para tomar uma cerveja e conversar besteiras. Fomos para o bar de sempre, com aquele garçom de nome jorge ou george, mas que a gente chama por um meio termo que não dê para especificar qual o nome exato que estamos chamando, vou chamá-lo de George, pois me identifico mais com esse nome. Eis que George estava sempre apto a trocar nosso copo por um mais gelado e conversava peculiaridades sobre o tempo e sobre os acontecimentos da semana.
Logo depois da primeira cerveja, recebo uma mensagem improvável de uma pessoa menos improvável ainda e ligo de volta para chamar tal pessoa para juntar-se a nós naquele momento. Trata-se de um cara muito importante pra mim, ele foi meu primeiro amor, daqueles amores platônicos que você ama quando ainda nem deu seu primeiro beijo na boca. Ele se chama Ernesto e hoje em dia é meu melhor amigo, vem reunir-se a mim, a uma de minhas melhores amigas e a namorada dela. Ele chega, sempre me espanto sobre como meus olhos se apertam quando eu o vejo e fica tirando onda sobre um chocolate que está em cima da mesa, perguntando de quem é o chocolate, eu digo que é meu e ele agradece a gentileza fingindo que vai guardar o chocolate no bolso. Ele sempre tem essas brincadeiras, que me deixam desconsertadas. Quanta besteira.
As conversas seguem de modo casual, falamos das pessoas (como sempre) e minha amiga e a namorada começam a falar de uma outra amiga nossa, que segundo elas, tem todos os sinais para ser homossexual, mas ainda não se descobriu. Pergunto se eu tenho os sinais para gostar de mulher, mas elas dizem que não, que eu poderia até experimentar, mas provavelmente não ia me envolver muito. Confesso que fiquei decepcionada ao saber disso, já que depois de saber que minha melhor amiga era homossexual, eu fiquei bem curiosa a respeito desse mundo, quem sabe eu não poderia ser mais feliz nele, afinal os homens estão me saindo uma grande decepção. Há um bom tempo que eu deixei de me interessar pelos homens, pensei que talvez com mulheres eu pudesse ser melhor sucedida. Ainda não descartei essa ideia, as mulheres costumam ser mais gentis ao dar em cima, elas não chegam agarrando como um homem, mas de todas as mulheres que já deram em cima de mim, nunca tive vontade de ficar com nenhuma delas.
Já era uma e meia da madrugada, o bar estava fechando e resolvemos ir embora, tomando a "dejair", a de já ir embora.
Parecia uma noite como qualquer outra, mas era 1 e meia da manhã e essa noite só termina às 4 da madrugada. Ainda há muita coisa para acontecer.