domingo, 23 de setembro de 2007

ritmo

O mundo tem ritmos estranhos: nos apresenta os sonhos para depois jogá-los no mar para vermos eles afundando; nos apresenta a felicidade como um pequeno doce perfeito, mas para termos o doce precisamos antes chupar um saco de limões azedos; nos da a chave e por pura falta de sentido, muda a fechadura. O ritmo do mundo muda tudo. E muda com o tic-tac do relógio e muda com os olhares desatentos encontrando olhares perdidos em pensamentos. Ideias soltas no espaço, que em meio a todo aquele vácuo encontram espaço pra sonhar por um momento. Sonhos de amores imperfeitos, de cabelos mal cortados e bolo de chocolate (nem sempre os sonhos têm que ser poéticos). O mundo tem ritmos estranhos, ritmos que fazem pulsar e suspirar, mesmo que o suspiro mais estranho.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Segundos antes do abraço

Te olho e te percebo lindo ao meu jeito, com esse seu jeito "torto", nada mais que um jeito de menino maroto, que só quer colo. Seus cabelos: finos fios que me enlaçam. Sua boca vermelha de sangue, do sangue que corre para você se manter vivo e eu me manter enebriada. Seus olhos quando me olham, um mar refletindo o brilho do céu, que magia é esta que tens no olhar? Me faz navegar e ancorar no infinito do teu brilho de mar. E quando você me abraçou meu mundo virou e meus braços com seus braços me segurando e me tocando com o toque mais suave e com o coração mais apertado junto ao meu coração quebrado que devido àquele abraço, juntou os caquinhos por alguns segundos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A arte de atuar

Nos acostumamos a ser atores sofridos, achamos que é muito mais fácil representar o fraco, a vítima que é oprimida pelo mundo; é muito mais fácil nos livrarmos da culpa de ser mundo do que sermos nós mesmos. Mal nos damos conta que com frequência o oprimido hospeda o opressor dentro de si e por medo de ser livre acaba por cultivar o opressor alí para sempre a executar sua função de carrasco. Ele corta as ideias e mata os sonhos, é assim que o carrasco opressor opera e é assim que seguimos alimentando esse assassino de sonhos, pois no íntimo temos medo de descobrir que aspiramos um dia ser o carrasco opressor e por medo de sermos nós mesmos imitamos o ideal de fragilidade oprimida. Frágil mundo ideal de tristezas. Somos atores de peças que nós mesmos inventamos para apresentá-las de frente ao espelho; fazemos mímica dos nossos sonhos e desenhamos em nós o que gostaríamos de ser: atores perfeitos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O que era... ?

O que era sol virou chuva e o que era chuva virou lágrimas e estas pousaram e rolaram sobre uma pele (uma expressão) triste, cobertora de músculos cansados de fingirem sorrisos. O que era desejo virou amor e esse amor tomou conta de um outro músculo que teima em se mexer sozinho e vai se mexendo às vezes rápido demais, mas ultimamente mexe quase como se fosse obrigado como se o estivessem matando lentamente. E o que era vida virou luz e o que era luz foi se apagando com o vento frio e o tempo vazio que vazia nevar: pequenos cristais de desilusão a cair e congelar.

Um segundo

Então olhou curioso o olhar ansioso que olhava para ele: olhos envoltos por um cabelo assanhado, acompanhado de um sorriso encantado que se encantava por ele. Delirou aquele ser curioso ao ver seu amor olhando pra ele, e decidiu ali mesmo que nunca mais ficaria longe dele. Sentiu o vento frio que assanhava os cabelos daquele ser ansioso e o frio do vento frio deu-lhe um calafrio que calou o segundo em que olhava pra ele e emudeceu quando percebeu que seu amor (que era todo seu) não apenas passava de uma foto de papel.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Parafraseando

Eu falei! Avisei pro meu coração que não se deixasse enganar por aquele sorriso incontido, aquelas poucas palavras (palavras doces), aquele rosto rosado, aquele olhar intrigante ... bobo, bobo coração enganado pela timidez. Um engano, mas o amor é sempre um engano: engano da cabeça até os joelhos que se enganam e tremem; pés que pisam enganados pensando que o chão é nuvem; olhos que veêm seu rosto por engano em todos que lhe aparecem; boca de palavras enganadas que chamam seu nome sem querer ... e como queria me enganar todos os dias, mesmo que por engano.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Um rapaz



Era uma vez um rapaz que não se preocupava exageradamente com a opinião dos outros. O importante para ele era estar em paz com a própria consciência e com seus princípios morais. Era como se Deus fosse seu juiz. E, provavelmente, só Deus o poderia julgar por seus pensamentos e por seus atos. Era possível perceber nele uma pessoa peculiar, gostava de protestar, mas penso que tal protesto devia-se ao fato dele não querer aprisionar sua consciência com os delírios das coisas reais. Afinal de contas, o protesto do homem é filho de um velho instinto de resistência à autoridade. Uma vez criado, o homem desobedeceu logo ao Criador. Esperar que o homem não proteste ou mesmo que cumpra as leis sempre é violar a liberdade primitiva dele. Creio que o único tirano que este rapaz aceita é a voz silenciosa dentro dele: a consciência.
Definitivamente é um rapaz peculiar. Mantém o seu modo de pensar independentemente da opinião pública. Está sempre disposto a aprender, mesmo que das crianças, mas principalmente dos velhos que tanto já viveram e aprenderam. Não sei se vive como se fosse morrer amanhã, mas aprende como se fosse viver para sempre. Respeita a verdade e não despreza nenhum ser humano; no máximo despreza idéias e conceitos taxativos que seguem o caminho contrário da razão. Mas acho que o mundo não é totalmente governado pela lógica: a própria vida envolve certa espécie de violência, e a nós nos compete escolher o caminho da violência menor. De modo que não há como fugir a ignorância.
Sem dúvidas há quem ame o infinito, há quem deseje o impossível, há quem não queira nada. Há três tipos de idealistas e ainda há quem não seja nenhum deles: porque amam infinitamente o finito, porque desejam impossivelmente o possível, porque querem tudo, ou um pouco mais, se puderem ser, ou até se não puderem ser. Em outras palavras, existem pessoas que ocupam suas mentes com coisas complexas e grandiosas, mas existem outras que ocupam suas mentes com coisas simples e me parece que este rapaz tenta (pelo menos tenta) se ocupar das coisas simples.
Às vezes ele parece obscuro, desconhecido e distante, não sei se o tempo negro, à força, fez com ele o mal que a força sempre faz. Mas isso pouco importa, o passado é uma roupa que não nos serve mais, cada um sabe de si e sabe o que é bom para si. Ou não. Mas uma coisa é certa: cada um escolhe os caminhos que deve seguir. “Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição”.
Ele deve querer muitas coisas, não faço idéia de seus desejos, mas imagino que um deles seja o de poder controlar-se. E este autocontrole me lembra uma citação que diz: "Aprendi, graças a uma amarga experiência, a única suprema lição: controlar a ira. E do mesmo modo que o calor conservado se transforma em energia, assim a nossa ira controlada pode transformar-se em uma função capaz de mover o mundo. Não é que eu não me ire ou perca o controle. O que eu não dou é campo à ira. Cultivo a paciência e a mansidão e, de uma maneira geral, consigo. Mas quando a ira me assalta, limito-me a controlá-la. Como consigo? É um hábito que cada um deve adquirir e cultivar com uma prática assídua”. Dizem que o mais sábio dos homens não é aquele que consegue matar suas paixões, mas sim aquele que consegue controlá-las; como disse não faço idéia dos desejos desse rapaz, mas creio que ele tem uma admiração pela sabedoria. Procura usar a cabeça. Tem mente de homem, mas coração de menino.