segunda-feira, 13 de junho de 2011

Capítulo 3

Março de 2004
No caminho para a aula, ele vai conversando comigo, falando trivialidades, a gente andando apressado por causa do atraso. A primeira impressão era de que ele era um cara tímido, com muitas ideias e poucos amigos. Ele falou mais ou menos o que estava achando do curso, daquelas aulas iniciais e como aquele ensino na área de humanas era diferente das demais áreas.
- Nas ciências humanas a postura do professor é totalmente diferente, ele dá aula, ainda que não seja a melhor aula.
- É, deve ser. Nunca estudei na área das exatas, não posso falar.
- Nas exatas o ensino é uma merda, o professor não tá nem aí pra nada. O aluno que se foda.
Ele ficou ainda falando um pouco sobre professores e ensino, eu ficava a maior parte do tempo calada ou dizia "aham, sei", só para dar continuidade. E ele continuava, era o tipo de pessoa que não precisava necessariamente de um interlocutor para conversar, para ele bastava a companhia para ele ficar expondo suas ideias e não ficar falando sozinho feito um louco. Ele fala mais pra ele (ouvir) do que para os outros, mas isso eu não tirei de uma primeira impressão.
Ele não era tão abestalhado quanto parecia. Tinha olhos apertados e avermelhados, cara de sono, jeito de quem acabou de fumar um baseado, roupa amarrotada, calça no meio da bunda arrastando uns 3cm de bainha pelo chão, cadaço desamarrado e pés tortos com pisada pra dentro. Era para ele ter usado botas quando pequeno, a essa altura é difícil corrigir pés tortos e ele já deveria ter uns 21 anos.
Estavamos nos aproximando da sala de aula e tinha uma pequena copa vizinha a sala, eu entrei pra beber um pouco de água e ele pegou uma garrafa de café e encheu um copo grande. Olhei mais uma vez e perguntei:
- Como é seu nome mesmo?
- Ernesto.
Eu me apresentei e ele disse que sabia quem eu era.

domingo, 12 de junho de 2011

Capítulo 2 - O início.

Março de 2004
Era meu primeiro ano de faculdade, o ano anterior tinha sido dedicado em exclusividade para estudar e passar num curso concorrido na universidade federal. Feito realizado. Eu estava animada querendo fazer amizades, me sentir parte de um grupo, eu parecia mais uma adolescente de 14 anos querendo se encaixar. Não estava acostumada com essa história de ir com a roupa que quiser. Passei tantos anos usando farda que não sabia nem o que era usar roupa normal todo dia. Nos primeiros dias usei o que eu achava mais parecido com roupa normal: uma calça djeans, uma camiseta baby look e um all star cor de rosa com azul (meu xodó durante todo o ensino médio), depois percebi que esse não era exatamente um estilo básico, era um estilo rock, mas isso é assunto para um outro texto.
Às vezes acredito naquela premissa que diz que a distância é inversamente proporcional ao tempo que você leva para chegar ao destino, pois apesar de morar à três minutos e meio da faculdade, eu sempre chegava atrasada. Nesse dia não foi diferente, acho que já era a segunda ou terceira semana de aula e quando eu cheguei na correria para não me atrasar mais do que devia, eu vi que a sala estava vazia, quer dizer, quase vazia. Havia um cara na sala, que eu já tinha visto alguma vez, sempre usando um all star preto, calça djeans e camisa de botão. Com exceção da roupa, não havia nada naquele sujeito que me agradasse. Ele estava sentado numa das últimas carteiras lendo algum livro que eu não consegui identificar. Eu cheguei, olhei bem pra sala, e fui verificar se havia alguém nos corredores, mas não havia ninguém, então resolvi logo voltar pra sala e perguntar àquele menino o que tinha acontecido.

- Cade o pessoal da sala, por que a aula ainda não começou?
- O pessoal vai chagar, é só esperar aí.
- Mas a aula já devia ter começado!
- O pessoal vai chegar.

Eu não conseguia olhar pra cara daquele menino e não achar que ele era um completo idiota. Alou! Já estavamos quase 25 minutos atrasados e não tinha ninguém pelos corredores ou na sala, é claro que havia algo errado, eu não podia simplesmente esperar "o pessoal chegar". Devia ter acontecido alguma coisa, os professores costumavam faltar algumas aulas e não avisar a ninguém, então eu logo imaginei que seria isso. Liguei para a única pessoa da turma que eu tinha o telefone e ele me disse que a aula era em outra sala e me disse o nome.
Voltei a falar com o cara e seu livro avisando-o que a aula ia ser em outro local e ele me exclama um "poxa, ainda bem que você me avisou, senão eu ficar aqui até..." eu só conseguia pensar que aquele cara era um abestalhado e que eu teria que ir o caminho todo (uns 6 a 7 minutos) conversando com ele.

Capitulo 1 - Noite qualquer: primeira parte.

03 de abril de 2009
Não parecia ser uma noite diferente das demais, estava saindo com meus amigos de sempre para tomar uma cerveja e conversar besteiras. Fomos para o bar de sempre, com aquele garçom de nome jorge ou george, mas que a gente chama por um meio termo que não dê para especificar qual o nome exato que estamos chamando, vou chamá-lo de George, pois me identifico mais com esse nome. Eis que George estava sempre apto a trocar nosso copo por um mais gelado e conversava peculiaridades sobre o tempo e sobre os acontecimentos da semana.
Logo depois da primeira cerveja, recebo uma mensagem improvável de uma pessoa menos improvável ainda e ligo de volta para chamar tal pessoa para juntar-se a nós naquele momento. Trata-se de um cara muito importante pra mim, ele foi meu primeiro amor, daqueles amores platônicos que você ama quando ainda nem deu seu primeiro beijo na boca. Ele se chama Ernesto e hoje em dia é meu melhor amigo, vem reunir-se a mim, a uma de minhas melhores amigas e a namorada dela. Ele chega, sempre me espanto sobre como meus olhos se apertam quando eu o vejo e fica tirando onda sobre um chocolate que está em cima da mesa, perguntando de quem é o chocolate, eu digo que é meu e ele agradece a gentileza fingindo que vai guardar o chocolate no bolso. Ele sempre tem essas brincadeiras, que me deixam desconsertadas. Quanta besteira.
As conversas seguem de modo casual, falamos das pessoas (como sempre) e minha amiga e a namorada começam a falar de uma outra amiga nossa, que segundo elas, tem todos os sinais para ser homossexual, mas ainda não se descobriu. Pergunto se eu tenho os sinais para gostar de mulher, mas elas dizem que não, que eu poderia até experimentar, mas provavelmente não ia me envolver muito. Confesso que fiquei decepcionada ao saber disso, já que depois de saber que minha melhor amiga era homossexual, eu fiquei bem curiosa a respeito desse mundo, quem sabe eu não poderia ser mais feliz nele, afinal os homens estão me saindo uma grande decepção. Há um bom tempo que eu deixei de me interessar pelos homens, pensei que talvez com mulheres eu pudesse ser melhor sucedida. Ainda não descartei essa ideia, as mulheres costumam ser mais gentis ao dar em cima, elas não chegam agarrando como um homem, mas de todas as mulheres que já deram em cima de mim, nunca tive vontade de ficar com nenhuma delas.
Já era uma e meia da madrugada, o bar estava fechando e resolvemos ir embora, tomando a "dejair", a de já ir embora.
Parecia uma noite como qualquer outra, mas era 1 e meia da manhã e essa noite só termina às 4 da madrugada. Ainda há muita coisa para acontecer.