quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Capítulo 8 - Considerações finais

Demorei a entender o que me fez ficar tão triste com a partida de Ernesto. Colocar o pé na estrada era algo que ele queria, acho que se ele estiver vivo, ele deve estar feliz, aproveitando os lugares, as pessoas, os momentos. Demorei a entender que amor é meio possessivo mesmo, eu queria é que ele estivesse perto de mim, seja lá onde fosse; queria compartilhar sonhos, verdades, sorrisos, afinal, a felicidade só é boa quando compartida e muitas felicidades foram compartilhadas com ele por um bom tempo.
Ele não era o tipo de homem que é amado por muitas pessoas e não faz muita questão de conservar amor de pessoas medíocres. Às vezes eu me sentia o máximo por não ser uma pessoa medíocre, mas depois eu percebi que a mediocridade é inerente a todo mundo e algumas pessoas apenas disfarçam melhor essa característica. No fim das contas, eu nunca descobri o mecanismo de aproximação que ele mantia com as pessoas, principalmente comigo. Eu represento muito do que ele acha superficial: sou patricinha, vou a lugares bombação, sou uma filhinha de papai. Mas também sou muito mais que isso e ele leu minhas entrelinhas. As pessoas se surpreendiam ao saber que eramos muito próximos, diziam "mas você é tão meiguinha, tão fofa, enquanto Ernesto é tão porra louca, não consigo imaginar vocês juntos"; e eu pensava que talvez eu é que tivesse lido as entrelinhas dele.
Muitas vezes saíamos pra consolar o coração um do outro, corações desiludidos, cansados, impacientes. Quando eu estava sofrendo por amor, eu só falava sobre amor (desamor). Quando ele estava sofrendo por amor, ele falava sobre filosofia, pensadores, política. Certa vez, ele me disse que seu casamento havia se acabado, dito isso, começou a falar sobre música, arte, qualquer coisa. Ele desabafava como quem queria se livrar de um fardo e nunca mais tocar no assunto. Parecia que ele tinha medo de amar demais e perder a vida com isso, deixar-se amar nunca foi o forte dele. Amar é o meu forte. E eu o amo, sem paixão, desejo, sem ilusões, nem beijos, nem mesmo muita aproximação, amo com verdade, amo como se não existisse véus nos olhos, nem na alma. Amo como quem ama e nada mais.
Às vezes fico imaginando a gente juntos, andando pelas ruas, morando em algum lugar tranquilo. Sinto que isso ainda vai acontecer algum dia e eu vou rir muito com ele sobre essa fase de afastamento que a gente viveu. Quando a gente está mais longe é que a gente está mais perto, gosto de pensar isso. Demorei a entender que ele estará sempre perto de mim. Ele está no meu pensamento, nos meus atos, no meu amor, no meu riso lembrando do riso dele, na minha felicidade não compartilhada, mas felicidade só é boa quando compartilhada.
Descobri que aonde quer que eu vá, ele vai comigo, no olhar. Ele acharia ridículo eu lembrar dele com uma música de paralamas do sucesso, mas ele também era um pouco ridículo e isso nunca fez a menor diferença.

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